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Floriano Peixoto (1839-1895), carreira de soldado raso a presidente do Brasil

Floriano Peixoto, o Livro

Retrato de Floriano Peixoto para ilustrar a capa de sua biografia

O prestígio popular dos estadistas é medido pela repercussão de sua morte. No Brasil, apenas três presidentes marcados pelo desgaste do poder tiveram enterros apoteóticos: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e Floriano Peixoto. Getúlio, "o pai dos pobres", e JK, o "presidente bossa-nova", foram devidamente valorizados pela posteridade. Floriano, o Consolidador da República, cujos 160 anos de nascimento, na vila de Ipióca, em Alagoas, comemoram-se em 30 de abril, ainda aguarda o reconhecimento da história. Abolicionista, liberal, nacionalista, zelador das instituições, o Marechal de Ferro defendeu o ideal republicano pensando no povo e num país moderno.

De soldado raso a presidente, Floriano fez carreira notável para um nordestino que nascera tão pobre que os pais o entregaram para um tio criar. Bacharelou-se em Ciências Físicas e Matemáticas na Escola Militar, lutou na Guerra do Paraguai (1864-1870), tomando parte inclusive na batalha final de Cerro Corá, em que morreu o líder Solano López. Foi presidente da província de Mato Grosso, senador e ministro da Guerra do governo provisório instaurado na Proclamação da República. Eleito vice-presidente, assumiu a Presidência, em 23 de novembro de 1891, após a renúncia do marechal Deodoro da Fonseca - mas, até deixar o poder, em 15 de novembro de 1894, assinou os despachos como "vice-presidente".

O Brasil de Floriano era um país agrícola de 14,3 milhões de habitantes (menos que a atual população de Minas Gerais), a maioria analfabetos sem renda ou direitos. A Coroa e o Parlamento funcionavam como balcão de negócios das classes dominantes, formadas principalmente por senhores de terra. Afloravam, no entanto, a classe média e a burguesia agrária, clamando por reformas. Um setor do Exército, mais forte e influente após o triunfo no Paraguai, achava que o ideário republicano não se esgotava na troca de um rei por um presidente. Defendia um governo centralizador, para fazer mudanças institucionais e abrir caminho à modernização do país.

Floriano tomou gosto pela missão. Primeiro, tratou de estabilizar o novo regime político. Cercado de rebeliões anti-republicanas ou contrárias ao presidencialismo centralizador, esmagou a Revolta da Armada, no Rio, e a "federalista", no Rio Grande do Sul, em 1893. O presidente conduziu o barco como o capitão no motim: aposentou, desterrou ou prendeu os revoltosos, entre eles muitos generais e almirantes e o poeta Olavo Bilac. Houve até fuzilamentos. Mas, em atitude incomum para um chefe militar, Floriano dissolveu à mão um protesto armado. Em 10 de abril de 1892, estava em sua casa, no subúrbio da Piedade, quando soube que uma passeata afrontava o governo. Tomou o trem para o centro e foi a pé da estação ao palácio. Cruzou sozinho a multidão, agarrou o coronel e amigo Menna Barreto pelo braço e encerrou a revolta: "Tu, como sempre, maluco. Estás preso".

Floriano contrariou os poderosos quando fechou os cofres públicos. O país ainda pagava a conta da guerra, mas a pilhagem persistia. Num exemplo tão necessário em nossos dias, impediu que o Tesouro socorresse grandes empresários e comprasse a alto preço títulos sem valor de firmas prejudicadas pela falência da Companhia de Estrada de Ferro. Naquela época, o Brasil importava quase tudo, e ele teve a idéia de aumentar os impostos sobre os produtos estrangeiros e estimular, com subsídio à indústria, a produção nacional. Atraiu a antipatia "de negocistas, agiotas e bolsistas", conta seu biógrafo Cyro Silva.

Ao povo, que recebia em casa, de chinelos e paletó de brim, com um palito rolando na boca, agradou ao tomar medidas como a desapropriação de cortiços explorados pelo conde d´Eu, genro de Dom Pedro II. Para dobrar os especuladores, estabeleceu o primeiro congelamento de preços do país. Reorganizou o serviço público e cuidou da aposentadoria dos funcionários. Fez os estudos iniciais para mudar a sede do governo para o Planalto Central, o que lhe valeu uma homenagem de JK no livro A Marcha do Amanhecer.

O reconhecimento popular traduziu-se em lágrimas, em 29 de junho de 1895, quando o marechal morreu de cirrose, aos 56 anos. O Rio, então com 600 mil habitantes, enegreceu de luto. "Um terço dos moradores da cidade, ou, talvez mais, assistiu à solene passagem desse cortejo", testemunhou Luiz Edmundo em O Rio de Janeiro do Meu Tempo. "Vi homens de joelhos, pelas ruas, senhoras que choravam". Para Floriano, até agora não funcionou a tradição brasileira de exaltar os mortos. "A história oficial relegou-o praticamente ao silêncio", escreveu Nelson Werneck Sodré. "Cometera crime inexpiável: defender o povo brasileiro".

O Marechal do Povo

Jornal A Crítica, (Cuiabá), de 03/05/1999

(Este artigo também foi publicado no Jornal de Itapira, no dia 30/05/1999 e no jornal O Expresso (Capão Bonito, SP), no dia 01/05/1999.

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